• Dra. Elaine Cristina Lima

Epilepsia: A tranquilidade vem da boa informação


Epilepsia é uma entre tantas doenças crônicas com excelente índice de bons resultados no tratamento, na qual, a maioria dos pacientes continua desempenhando sua atividade produtiva com bom desempenho, mas poucas geram tantos mal-entendidos. Ao receberem esse diagnóstico, os pacientes sentem um peso desnecessário ligado principalmente à falta de informação da população e até mesmo do próprio pessoal da Saúde.

Desinformação à parte, a doença é causada por descargas em grande quantidade pelos neurônios, de forma localizada ou maciça, resultado de um real descontrole dos impulsos elétricos. Todo pensamento, sensação e ação consciente ou inconsciente tem em correspondência, impulsos elétricos no sistema nervoso.

Na Epilepsia, as descargas ocorrem de forma desordenada e sem comando, fazendo com que um membro ou todo o corpo se mova. Pode haver apenas uma alteração de sensibilidade, a mente pode estar parcialmente acometida ou o paciente pode estar completamente inconsciente. Pode ou não haver desmaio, descontrole de esfíncter (geralmente incontinência urinária e às vezes fecal), hipersalivação, ferimentos em lábios, mucosa jugal e língua.

Crise epilética não significa Epilepsia.

Uma primeira crise epilética pode ocorrer em qualquer fase da vida sendo causada por algum fator: infecção aguda, acidente vascular encefálico, traumatismo craniano, intoxicações por drogas ilícitas, efeito de medicamentos, distúrbios metabólicos e de íons, tumores, malformações de vasos, aneurismas ou outras malformações.

Pode-se encontrar alguma cicatriz antiga (de um período e causa conhecidos ou não: trauma antigo, infecção antiga, acidente vascular encefálico antigo, falta de oxigênio intra-útero ou pós-natal). Pode ainda ter origem desconhecida mesmo após a realização de todos os exames pertinentes.

Se a crise epilética veio para sinalizar uma doença aguda, trata-se a doença aguda. Só chamaremos de Epilepsia quando for uma condição crônica. Chamaremos de Epilepsia secundária quando a causa (etiologia) for estabelecida e não for tratável (malformação de córtex ou outra estrutura da arquitetura cerebral).

QUAIS OS TIPOS DE EPILEPSIA?

Existem vários tipos de classificação, mas a mais comum divide as crises em: Parcial e Generalizada. Na Crise Parcial, não há perda completa da consciência, principalmente nas motoras e sensitivas.

Na motora, o indivíduo pode perder o controle de um membro, um lado da face ou um lado inteiro do corpo, que mantém uma postura rígida ou apresenta abalos incontroláveis. Nas sensitivas, há alteração da sensibilidade como formigamento, sensação de frio ou calor, ou queimações nas mesmas proporções.

Nas parciais psíquicas, o paciente tem alteração do humor, alterações da percepção do tempo, do espaço ou de pessoas. Pode ter grande sensação de prazer ou uma sensação identificada como mística, ou ter uma lembrança (reminiscência). Geralmente lembra-se das crises e contactua parcialmente. Há dois tipos de crise parciais psíquicas, a “Jamais vu e a Deja vu”. Na primeira, há uma sensação de nunca ter visto, uma estranheza, geralmente um lugar comum. No segundo tipo, uma sensação de familiaridade irreal. Dura alguns segundos ou minutos, raramente pode durar mais. Lembrar de três características principais de crise epilética: começo e término abrupto, curta duração e repetição do padrão.

Nas crises sensoriais ou sensitivas especiais, o indivíduo tem visões que variam desde brilhos sem forma, algumas formas básicas, até imagens bem definidas. Apresenta crises de olfato, geralmente um odor desagradável (mas pode ser agradável) precedendo uma crise generalizada. Outras vezes, uma música ou som como uma única nota musical que se repete.

Nas crises chamadas Parciais “Complexas“, há alteração da consciência na qual o paciente percebe parcialmente o que acontece ou pode ficar completamente “fora do ar“ durante uma conversa, por exemplo. Algumas vezes, apresenta olhar fixo com movimentos estereotipados, como “esfregar as mãos sem motivo”, pode apresentar movimentos com a boca e a língua de forma repetida e semelhante, deglutições, mastigações e piscamentos excessivos. As crises começam e terminam de forma abrupta e depois não lembrar do que foi falado naquele momento.

As parciais ainda podem ser “autonômicas“ causando alterações súbitas de pressão arterial, frequência cardíaca, sudorese, rubor facial e dores abdominais inexplicada.

As Crises Generalizadas são de dois tipos:

Generalizada “tipo Ausência“, onde o paciente tem vários períodos de “desligamentos” durante os quais não percebe o meio. A duração é variável mas em geral curta, questão de alguns segundos podendo ocorrer dezenas ou centenas por dia. Ocorre principalmente em crianças e geralmente desaparecem na adolescência. Pode ser a causa de baixo rendimento escolar (pois alguns casos são de percepção difícil).

Não é fácil diferenciar a crise de “Ausência“ da “Parcial Complexa”. Algumas vezes, apenas com Eletroencefalograma.

Generalizada Motora, cujos principais tipos são Tônica e Tônico-Clônica. Na Crise Tônica, há perda de consciência imediata com contrações musculares repentinas e duradouras deixando os membros tensos e estendidos. Na Crise Tônico-Clônica, o paciente perde a consciência, cai, às vezes emite um grito ou gemido e desenvolve rigidez generalizada (fase tônica). A respiração para repentinamente e toda musculatura do tronco entra em espasmo. A coloração da pele fica cianótica, a cabeça fica retraída, os braços flexionados e as pernas estendidas e dura vário minutos. Quando os abalos cessam, o paciente pode recobrar a consciência sentindo-se muito cansado e com dores musculares, confuso, pode queixar-se de cefaleia e náuseas.

Uma Crise Generalizada Motora pode vir na sequência de uma Crise Parcial.

A EPILEPSIA É UMA DOENÇA MAIS COMUM DO QUE SE PENSA E OS RESULTADOS DOS TRATAMENTOS SÃO EXCELENTES NA GRANDE MAIORIA.

  • Acomete 1 a 2% da população geral. O tratamento tem resultados excelentes em até 70 a 80% dos casos;

  • A Epilepsia de difícil controle perfaz apenas 3% dos casos. Em geral, falta aderência ao tratamento e a orientação de um profissional adequado;

  • A maioria dos Epiléticos tem vida normal e inclusive destacam-se na sua vida profissional.

RISCO PARA UMA SEGUNDA CRISE

O risco de uma segunda crise após uma crise única sem causa determinada é de 33 a 50%. O risco de uma terceira crise após duas crises sem causa definida é de 60 a 90%. Se for encontrada uma causa não aguda após a primeira crise, o risco sobe.

A decisão de tratar ou não, desde a primeira crise (sem causa definida) leva em consideração o achado no Eletroencefalograma e o meio no qual o paciente se insere, assim como questões emocionais.

As Epilepsias iniciadas na infância ou adolescência têm maior chance de cura.

A doença é considerada resolvida quando um indivíduo ultrapassou a idade de uma

determinada Epilepsia e está há muito tempo sem crise, ou está há pelo menos 10 anos sem crises, do quais, pelo menos 5 anos sem medicação.

DIAGNÓSTICO:

O diagnóstico é clínico e é muito importante que o paciente vá acompanhado ao consultório pois a descrição da crise é primordial para o diagnóstico e tratamento adequado.

Os exames necessários para confirmação são: Eletroencefalograma, tomografia de Crânio, Ressonância Nuclear Magnética e às vezes, Holter EEG e Vídeo EEG (principalmente quando se suspeita de crises epiléticas associadas a crises psicogênicas).

TRATAMENTO E RECOMENDAÇÕES

As medicações atuais são bastante eficazes e com efeitos colaterais bem toleráveis. Existe uma sequência a ser seguida entre as medicações. Analisa-se o tipo de Crise, o tipo de Epilepsia além de melhores associações entre medicamentos.

Orienta-se os pacientes a não ingerirem bebidas alcoólicas, não passarem noites em claro, ter uma dieta balanceada, evitarem jejum prolongado e evitarem exercícios extenuantes. Muitos pacientes experienciam crises após alterações emocionais (tanto alegrias quanto tristezas). Geralmente indica-se um acompanhamento psicológico com o objetivo de incentivar o paciente a melhor lidar com uma doença crônica.

O tratamento cirúrgico só é indicado em casos refratários a medicações, considerando também a tolerância do paciente aos possíveis efeitos colaterais.

O QUE FAZER DIANTE DE UMA CRISE?

Diante de uma crise parcial, deve-se ajudar a pessoa a deitar-se no chão, pois a crise pode generalizar e haver queda brusca. Procure colocar algo macio debaixo da cabeça para protege-la. Tente virar o paciente de lado para proteger a respiração e afrouxe roupas apertadas (principalmente gravata e camisa).

Não tente colocar nada na boca e entre os dentes (pode provocar fraturas de mandíbula). Pode-se limpar parte da saliva expelida com um lenço (não é contagioso). Espere a crise acabar, em geral são pouco minutos e se demorar mais de 5 minutos ou se ocorrerem várias crises deve-se acionar o resgate. Em geral, não há necessidade de levar o paciente ao pronto socorro se este já souber ser epilético.

Após a crise acabar, o paciente entrará em sono profundo. Deixe-o descansar e relate o episódio ao médico que o acompanha.

ALGUMAS MANIFESTAÇÕES PARECEM CRISES EPILÉTICAS, MAS NÃO SÃO.

DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS.

Não é incomum encaminharem ao Neurologista pacientes com Síncopes ou Crises Psicogênicas ao invés de Epilepsia.

SÍNCOPE: é a perda da consciência de forma transitória com curta duração (segundos a poucos minutos) seguida de recuperação espontânea. Há perda de tônus postural e queda e pode haver liberação esfincteriana. O paciente geralmente tem pródromos, ou seja, mal-estar, turvação visual, taquicardia, sudorese, frio e palidez. Geralmente são desencadeadas por estresse emocional, salas fechadas, exposição a altas temperaturas, levantar-se muito rápido ou permanecer muito tempo em pé. Também após esforço físico ou sem motivo aparente.

Pode ser causada por queda abrupta da pressão arterial, arritmia cardíaca ou insuficiência circulatória em vasos cervicais. É muito importante saber diferenciar, pois, pode ser uma situação de maior risco a curto prazo.

Crises Psicogênicas ou Transtorno Dissociativo: Existe um número não estimado de pacientes que receberam o diagnóstico errôneo de Epilepsia, mas na verdade, possuem crises psicogênicas, ou seja, têm transtornos da esfera psicológica. O mecanismo dessas DOENÇAS tem como substrato, ganhos primários e secundários que atuam de forma SUBCONSCIENTE.

A Dissociação não significa Simulação (em que o indivíduo simula uma doença conscientemente), é uma doença frequente muito malconduzida pelos profissionais de saúde e causa um enorme sofrimento para o paciente e seus familiares. Alguns pacientes com Epilepsia têm crises psicogênicas associadas. Deve ser diagnosticada pelo Médico e conduzida pelo Psicanalista ou Psicólogo.

Após mutilar a própria orelha, em 1889, aos 36 anos, Van Gogh pediu para ser internado no hospital psiquiátrico em Saint-Paul-de-Mausole. A doença de Van Gogh foi analisada durante os anos posteriores e existem várias teses sobre o diagnóstico. Alguns como o doutor Dietrich Blumer, em artigo publicado no American Journal of Psychiatry, mantém o diagnóstico de epilepsia do lobo temporal, agravada pelo uso do absinto.

Dra. Elaine Cristina Lima - Neurologista

Com mais de 16 de anos de experiência vividos em Medicina,

na área de Neurologia com MBA Executivo em Saúde;

Expertise em Neurologia e Clínica Médica;

UNIFESP

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